quinta-feira, 14 de abril de 2011

assim

eu te amo
e te quero
aqui perto

no bom
no som

no assanho
no assado

quarta-feira, 16 de março de 2011

lamentava os amores de vento
até que um redemoinho
redemoeu seu peito
numa rajada de
momento

fosse assim

fui limpar minha cara
e não tinha algodão.
claro, fui pra janela
escolher uma nuvem
a mais branca e
melhor absorvente.

tem uma boa vindo
à esquerda, esperei.
quando pude alcançar
peguei grande chumaço
que já na minha mão
foi se acinzentando.

caiu um pedaço no
meu pé e num logo
logo escureceu.
esfreguei a nuvem
na cara: bochechas
testa, nariz, pescoço
pálpebras.

fechados olhos,
senti água escorrer
pesado pelos braços
entornando pelos
meus cotovelos:
fez poças no chão.

já lago, meus pés
alcançados, molhados,
me arregalaram os
olhos de supetão
num susto elétrico:
descarga de raios.

da congestus só
vi a cumulonimbus
enchendo tempestades
em meu banheiro.
a pavor saí, tranquei
difícil aquela porta.

no quarto o espelho
tanto mais me apavora:
eu estava tão limpa
como nunca ter existido.
má nuvem levou minha
humanidade.

segunda-feira, 14 de março de 2011

o dia fazendo mais força

minhas noites tem
sido cedo dormidas,
pesadas, e as suas?
não deve estar
à minha procura

que de tanta minhas
pálpebras fura
meu dedos
ventriloca
e minha boca
- rasgada de sorrir -
te evoca


pois eu tenho mesmo
é dormido como se
morta

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

quando vi Chico Buarque

o peso de
seus olhos ultramarinos me azuleta
e o céu da tarde então me encapa
uma nuvem gris me transpassa
e traz um tufão que me enventa

todos meus poros desvariam: esquentam ebulem eriçam erigem
as vísceras se diluem no meu ventre e vão quebrando em ondas

tudo no recorte de um instante que passado minha cor me volta

e logo o aprendismo me domina: quer estande
a contraprova de que no tempo dum momento
o alto-mar lírico soprou meus cabelos de vento

sábado, 19 de fevereiro de 2011

engarrafamento

parado encadeado ao automóvel
em que eu me encontro trancafiado
mais imóvel ainda em relação ao chão:
são as engarrafas descasuais
tão pontuais que me irrito
mas será o benedito?
há quanto tempo?
que horas são?

veja só, um catavento! - um passatempo -
a girar antihorário... seria as antihoras
melhores que esse tempo?

desgirou o catavento
fazendo um quase parar
até pairar em favor horário
e que favor... gira depressa!

ah! fosse assim o meu relógio
estaria eu noutro lugar melhor...
ou pior! já cansada a retornar
pr'essas engarrafas retornáveis

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

tesoureado

queria me embriagar
me encontrar de ti perdido
me esperdiçar, te trair e voltar
fazer disto meu purgar requerido

escrava do teu suspenso perdão
sorridentar teu chute à minha cara
de bom grado ter seu carinho de navalha
agradecer cada ofensa e muito mais pedir: fala

louca de querer querer
querer querido e não forjado
a estas linhas - oculto o fado -
sou retalho

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

era uma vez um choro depois da insolação

o sol queimou meus olhos.

não sabia ele que estes
chorariam mais tarde?
agora arde
e o sal alardeia sua presença
mesmo tendo ido o dilúvio
e o sequer molhado
ter secado

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

tantos dias de vida-reza

(à minha avó)

esses olhos verdes mergulhados
em lacrimejos não descidos,
brilho espesso, esmeralda cozida

coseu sua vida com as
linhas contas dos terços
dos peços e agradeços
dos tem misericórdias
e dos eu mereços

com sua fé
garante meu bem:
pedindo a Ele
que me abençoe
guarde e proteja
e eu, de amor,
amém

desreciprocidade súbita

Por um momento
recebo amor,
dou nada.
Algo me corrói.
Paralizo.
Qualquer movimento
e sou submergido.
Oco, não ecoe!

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

sobre um dia que dura 23:59:59(...)h

me dá meu segundo,
carinho sequer nesse mundo,
não deixe o meu dia suspenso
- de castigo na gangorra -

um vazio profundo
me transborda moribundo
e desse oco abano um lenço
- em paz me socorra -

nao te contei da receita
que hoje experimentei
nem do café tão quente
que a língua queimei

achei um molde de bravura-de-amor
amassado, empoeirado, esquecido
nada que não possa ser consertado
se aproveitado esse tempo de calor

pra amaciá-lo e remodelá-lo
à forma tua, meu amor.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

observando nuvens

um gigante úmido
tenta se proteger
de uma luz ofuscante
mas é decaptado
pelo calor
do raio solar

tido sentido

por se punir
de tanto
não-sentir
sentido
questionou
ao oniquestionado
quando chegaria
o pós-seta
que revelaria
ter sentido
em tudo
que se tenha
tido