sexta-feira, 5 de agosto de 2011

fado

permear
-se encontrar na perdidão
se perder na encontridão-
água impermeável
água, pedra
duna

uma, duas
as duas
Pensei:
antes que eu me
engane e entre
em pane

Eu me situo
no meu mato
no meu chão

Num movimento voluntário
eu tinha parado a respiração
E no último segundo
paro, piro, desmaio
e respiro
a única opção

Eu pensava estar lograda
e justo quando eu me senti mais desperta,
a afluência caiu sobre mim, desaguada e arriscada
Mas sei que não é pela água querer me afogar

Pois esperou
até que eu soubesse
nadar

Sonho

Na mesa
minha cabeça
em dez fatias

No tato
vou ao encaixo
dos pedaços

No erro
me desfiguro
ensanguentada

No acerto
me apareço
proclamada

Reveldia

Resistia
Não sabia se valia
a felonia
Mas pensou na rebeldia
No dia
que ao revés
se revelaria

segunda-feira, 25 de julho de 2011

O homem sempre será o isto que é
Experiências descobrem naturezas
e as adaptam no si consciente do ser
(naturalidades podem ser brutais quanto artificializados nos descobrimos)

As pessoas que conhecemos, as loucas, são experiências concentradas
Uma gota que pesa mais do que pesa qualquer coisa que tenha peso
Massa
Massa
Peso no corpo e na mente
Quem é essa gente?
Quem é essa gente?

A leveza pesa, o peso pesa, o peso leva, a leva leva
mas desapega, não menos afetado,
frente ao abismo do
suportar de um
indivíduo

quarta-feira, 20 de julho de 2011

O sol queimou meus poros.

Não sabia ele que estes
se ebuliçariam mais tarde?

Ao despertar num baque
sinto meu vestido estar chorado.
Nos olhos perdidos de quem
meu pingo de sal foi molhado?
Maior do que quem capta
é quem transmite.
Verdade encoberta
de dinamite.

Só atingindo grau de gneiss distante
pra ser pedra que não se rompe
e então ver como pode ter beleza
o espetáculo do longe.

sábado, 9 de julho de 2011

enquanto nuvens vem caber o teto do meu quarto, sentencio:

vou nunca mais ter sido leve
com quem eu me apegue

quinta-feira, 7 de julho de 2011

vou dormir
pra ver se eu durmo

se eu dormir,
dormi
De não saber roubar espaço,
pego o espaço quando está no espaço
sem trazer pra cá.
E o espaço no espaço
logo se deixa espaçar.

Volto eu pra minha estaca a zero,
Abraço uma auto-condolência
e espero ver se o espaço vai de novo
por mim se deixar passar.

o

De nó em nós
se cose o embaraço
De pó em pois
se firma o descompasso

A medida entre os dois pontos
agora enlouqueceu
Quando distante era tão curto
e emperteado longeou

Eu só espero não ter a infinitude
de daqui até o céu
No máximo essa distância de anel:
daqui até aqui.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

como quem não quero nada
quero um doce, uma música
e sentir um cheiro bom

como quem não quero nada
como um doce, ouço música
e tomo um banho no tom

como quem não quero nada
visto doce, canto a música
e pego um trem na estação

como quem não quero nada
chego doce, ligo a música
e logo logo tudo é zonzom

como quem não quero nada
dispo o doce, movo à música
e em ti desconto: era tesão

domingo, 26 de junho de 2011

quadrada

primeiro verso e dez sílabas métricas
segundo verso e dez sílabas métricas
terceiro verso e dez sílabas métricas
quatro versos e dez sílabas mentem

quinta-feira, 5 de maio de 2011

escolhe o se (ou escoliose)

tenho dor de enseada de cálcio
com o vigor compacto de um punho fechado
que de tão duro me enrijece do fisgaço

penso se a pedra doesse
será poderia me explicar
o segredo de ser natural

pra ver se descubro conformação
em ser mijado num dia estalado de sol

parece

o que sou não me alcança
o que penso não me torna
o que sinto não me domina
(ou tem preguiça)

e o que me move...
pensa que não

domingo, 1 de maio de 2011

na calçada sentada sem fralda

cocô de rato
gato cachorro
e de gente

cocô de aranha
mosca barata
e serpente

e a criança
daquela bunda
nem sente

quinta-feira, 14 de abril de 2011

assim

eu te amo
e te quero
aqui perto

no bom
no som

no assanho
no assado

quarta-feira, 16 de março de 2011

lamentava os amores de vento
até que um redemoinho
redemoeu seu peito
numa rajada de
momento

fosse assim

fui limpar minha cara
e não tinha algodão.
claro, fui pra janela
escolher uma nuvem
a mais branca e
melhor absorvente.

tem uma boa vindo
à esquerda, esperei.
quando pude alcançar
peguei grande chumaço
que já na minha mão
foi se acinzentando.

caiu um pedaço no
meu pé e num logo
logo escureceu.
esfreguei a nuvem
na cara: bochechas
testa, nariz, pescoço
pálpebras.

fechados olhos,
senti água escorrer
pesado pelos braços
entornando pelos
meus cotovelos:
fez poças no chão.

já lago, meus pés
alcançados, molhados,
me arregalaram os
olhos de supetão
num susto elétrico:
descarga de raios.

da congestus só
vi a cumulonimbus
enchendo tempestades
em meu banheiro.
a pavor saí, tranquei
difícil aquela porta.

no quarto o espelho
tanto mais me apavora:
eu estava tão limpa
como nunca ter existido.
má nuvem levou minha
humanidade.